O Encontro

by - 20:03

Entraram pela porta e logo se destinaram a mesa reservada. Percebi rapidamente que tipo de encontro se tratava aquele, quando o rapaz puxou a cadeira para a linda moça sentar-se e só então, depois de dar-lhe um pequeno beijo na bochecha e assegurar-se de que ela estava em total conforto no lugar, é que se dirigiu a seu aposento para acompanhá-la no jantar. Fez um gesto com as mãos ao mesmo tempo em que procurava um garçom para lhes atender. Eis que me avista. Num ato súbito, tento disfarçar dando um sorriso completamente falso. E envergonhado, esperando que ele não percebesse que em todo esse tempo estava a lhes observar, desloco-me até sua mesa.
Desejo-lhes boa noite, e com a maior cara de cínico, peço desculpas pelo atraso no atendimento. Simpáticos, me dizem que está tudo bem. Parece que não perceberam nada. Relaxo. Entrego-lhes o cardápio. Ele, meio que tenso, parecendo estar tentando ao máximo se esforçar para que tudo dê certo esta noite, pede-me primeiramente uma garrafa do melhor vinho que tiver, sem nem mesmo olhar a carta, enquanto junto com ela, ainda escolhem a entrada. A moça apenas sorri para mim, com a expressão um pouco confusa. Recolho-me a adega.
Retorno com a garrafa na mão e vejo que a mulher não se encontra mais à mesa. Suo frio pensando que minhas expectativas para com aquele jovem casal, tenham sido levadas por água a baixo. Sirvo-lhe e pergunto discretamente pela senhorita. Ele ainda muito preocupado, não imagino com o quê, me responde que ela foi ao banheiro e mudando completamente de assunto, pede-me um favor. Começo a tremer com o pedido, suprindo mais do que eu esperava para esta noite, mas rapidamente volto à mim. Digo-lhe que não falharei na missão ao mesmo tempo em que me entrega o pequeno anel, folheado a ouro e com uma pequena pedra de brilhante. Percebo que ela retorna do toalete e disfarçadamente saio para buscar os pedidos. Agora entendo o motivo de tanta ansiedade.
Depois de alguns minutos degustando o jantar com sua amada, ele me manda veladamente o sinal do combinado. Pego a bandeja com duas velas e a sobremesa. Um simples pudim de chocolate, que mesmo sem o conhecimento da moça, carrega um objeto que pode mudar a vida de ambos dependendo da sua reação ao descobrir. Chego à mesa mais nervoso que o rapaz, e com as mãos suando frio deposito a refeição no centro da mesma. Recolho os pratos usados, passo um pano para limpar os vestígios de comida que por acaso chegaram a cair e acendo as velas, pondo uma em cada lado. Ela me olha constrangida, sem entender para quê tanto romantismo. Pego a bandeja e saio para a cozinha. Volto o mais rápido possível para o balcão de atendimento, esperando pelo grande momento.
É quando acontece.
A mulher, ao dar a primeira garfada no pudim, que por sinal foi no mesmo local em que eu depositara a pouco tempo o anel, acaba por se engasgar. O rapaz fica perplexo com o acontecido e grita para que chamem uma ambulância. Corro as pressas para o telefone do estabelecimento e ao mesmo tempo em que peço ajuda, vejo uma tremenda aglomeração se formando em torno deles. Todos os clientes estavam a observar enquanto o gerente e outros garçons, cuidavam para que os curiosos não chegassem muito perto da mulher desmaiada no chão, com o namorado em prantos ao seu lado.
Não demora muito para a ambulância chegar. Até que os enfermeiros fazem todos os procedimentos necessários e a mulher finda por cuspir o anel para fora da garganta. Todos se acalmam, enquanto a levam para o hospital junto com o coitado do homem, para possíveis prescrições médicas por causa do susto e do tempo em que a paciente ficou desmaiada.
E aqui fico eu, ainda em choque, tentado entender o acontecido e me perguntando como a vida pode ser imprevisível desse jeito. Mas que uma coisa nisso tudo eu tenho razão, nem tudo ocorre conforme o planejado.

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